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  1. quando os caminhos se dividem eu escolho sempre todos.
 
eu podia não ter me arremessado da janela, eu podia ter nascido com asas, eu podia torcer pra não quebrar as duas pernas, eu podia ainda ter um estômago, eu podia ter virado a cara, eu podia ter virado as costas, eu podia ter batido a porta sem amanhã, eu podia nunca ter entrado, eu podia não ter tocado a campainha, eu podia não ter apertado o onze no elevador, eu podia nunca ter esperado o elevador e podia nunca ter pisado nessa portaria também, eu podia não ter chamado um táxi e ter pedido para ele me deixar no prediozinho cinza de janela branca virando ali no posto bem do lado daquele carro prata à esquerda, eu podia nunca ter passado por essa rua, eu podia não ter atendido o telefone e não ter dito que eu ia te encontrar sim às nove horas e pode deixar que eu levo vinho e o sushi e se você quiser vai baixando aquela série nova pra gente começar a ver junto, eu podia não ter chorado enquanto eu lia o livro da hilda, aquele verde com maçã na capa, sabe?, eu podia não ter escolhido assistir justamente manhattan no sábado à noite sozinha em casa que eu sei que é foda e que é em pb e filme em pb enternece e que tem a diane keaton falando cinquenta palavras esquizofrenicamente apaixonantes por minuto do jeito que eu gosto e do jeito que eu faço sempre e que você gosta às vezes sim às vezes nada e que ainda por cima era sábado à noite e eu tava sozinha em casa pensando em você porra, eu podia ter falado que era melhor você não ficar pra dormir, eu podia não ter ficado pra dormir, eu podia não ter mandado a primeira mensagem, eu podia não ter lido todas as outras que vieram depois, eu podia não ter respondido de madrugada e ter deixado pro dia seguinte, eu podia ter deixado tudo pro dia seguinte, eu podia ter esquecido, eu podia ter lembrado, eu podia nunca ter voltado aqui, eu podia ter voltado e nunca ter chegado, eu podia ter chegado e nunca ter insistido, eu podia ter ido embora pra sempre antes, eu podia ter ido embora pra sempre depois, eu podia ter comprado uma passagem pra uma cidade fantasma, eu podia não ter sonhado em pegar esse avião com você, eu podia ter fugido a cavalo do país, eu podia ter mudado de telefone ou podia ter quebrado o telefone na parede que se foda, eu podia ter deletado meus perfis das redes sociais, mas antes eu podia ter postado aquela música do bob dylan versão do caetano que a gal canta olhando no meu olho e cantaria olhando o teu olho também só pra pisar no teu coração com os pés dourados que eu queria que fossem os meus pés em cima do teu coração leviano, eu podia não ter colocado o neil young pra cantar harvest moon por quarenta e oito vezes seguidas no radinho de casa, eu podia nunca ter tirado aquela música do camelo no violão, eu podia não ter chorado sentada na calçada do humaitá, eu podia ter xingado a tua mãe, eu podia ter xingado a tua analista, eu podia ter gritado alto e rouca e descabelada olhando você bem de perto e bem dentro dos olhos, eu podia ter ficado quieta que nem bicho assustado, eu podia ter ido pra cima que nem bicho que sempre fui, eu podia ter fechado os olhos bem fechados num escuro só meu, eu podia ter costurado a boca e o coração e o peito todo com uma linha vermelha que saísse da cabeça e descesse me enrolando o corpo todo até a ponta dos pés e pra trás desses pés e pra trás desse corpo inteiro que nem rastro de gente perseguida ou cheiro que cachorro fareja de longe, eu podia ter dito que eu não ia fazer nada, eu podia não ter feito nada, eu podia não ter falado nada, eu podia não ter esperado nada, eu podia ter dito que não, eu podia ter dito que sim.


[imagem: John Clang]

    quando os caminhos se dividem eu escolho sempre todos.

     

    eu podia não ter me arremessado da janela, eu podia ter nascido com asas, eu podia torcer pra não quebrar as duas pernas, eu podia ainda ter um estômago, eu podia ter virado a cara, eu podia ter virado as costas, eu podia ter batido a porta sem amanhã, eu podia nunca ter entrado, eu podia não ter tocado a campainha, eu podia não ter apertado o onze no elevador, eu podia nunca ter esperado o elevador e podia nunca ter pisado nessa portaria também, eu podia não ter chamado um táxi e ter pedido para ele me deixar no prediozinho cinza de janela branca virando ali no posto bem do lado daquele carro prata à esquerda, eu podia nunca ter passado por essa rua, eu podia não ter atendido o telefone e não ter dito que eu ia te encontrar sim às nove horas e pode deixar que eu levo vinho e o sushi e se você quiser vai baixando aquela série nova pra gente começar a ver junto, eu podia não ter chorado enquanto eu lia o livro da hilda, aquele verde com maçã na capa, sabe?, eu podia não ter escolhido assistir justamente manhattan no sábado à noite sozinha em casa que eu sei que é foda e que é em pb e filme em pb enternece e que tem a diane keaton falando cinquenta palavras esquizofrenicamente apaixonantes por minuto do jeito que eu gosto e do jeito que eu faço sempre e que você gosta às vezes sim às vezes nada e que ainda por cima era sábado à noite e eu tava sozinha em casa pensando em você porra, eu podia ter falado que era melhor você não ficar pra dormir, eu podia não ter ficado pra dormir, eu podia não ter mandado a primeira mensagem, eu podia não ter lido todas as outras que vieram depois, eu podia não ter respondido de madrugada e ter deixado pro dia seguinte, eu podia ter deixado tudo pro dia seguinte, eu podia ter esquecido, eu podia ter lembrado, eu podia nunca ter voltado aqui, eu podia ter voltado e nunca ter chegado, eu podia ter chegado e nunca ter insistido, eu podia ter ido embora pra sempre antes, eu podia ter ido embora pra sempre depois, eu podia ter comprado uma passagem pra uma cidade fantasma, eu podia não ter sonhado em pegar esse avião com você, eu podia ter fugido a cavalo do país, eu podia ter mudado de telefone ou podia ter quebrado o telefone na parede que se foda, eu podia ter deletado meus perfis das redes sociais, mas antes eu podia ter postado aquela música do bob dylan versão do caetano que a gal canta olhando no meu olho e cantaria olhando o teu olho também só pra pisar no teu coração com os pés dourados que eu queria que fossem os meus pés em cima do teu coração leviano, eu podia não ter colocado o neil young pra cantar harvest moon por quarenta e oito vezes seguidas no radinho de casa, eu podia nunca ter tirado aquela música do camelo no violão, eu podia não ter chorado sentada na calçada do humaitá, eu podia ter xingado a tua mãe, eu podia ter xingado a tua analista, eu podia ter gritado alto e rouca e descabelada olhando você bem de perto e bem dentro dos olhos, eu podia ter ficado quieta que nem bicho assustado, eu podia ter ido pra cima que nem bicho que sempre fui, eu podia ter fechado os olhos bem fechados num escuro só meu, eu podia ter costurado a boca e o coração e o peito todo com uma linha vermelha que saísse da cabeça e descesse me enrolando o corpo todo até a ponta dos pés e pra trás desses pés e pra trás desse corpo inteiro que nem rastro de gente perseguida ou cheiro que cachorro fareja de longe, eu podia ter dito que eu não ia fazer nada, eu podia não ter feito nada, eu podia não ter falado nada, eu podia não ter esperado nada, eu podia ter dito que não, eu podia ter dito que sim.

    [imagem: John Clang]

     
     
  2. o astronauta ao menos.

uma mulher dançava de roupa brancadepois que a dinamite explodiu.eram milhares de papéis sobre nossas cabeças sem nada escritonenhuma linha pelo ar,pura levitação,e um sol pretoe branco numa sala muito escurade tijolos manchadosde carvão.uma parede durapor onde fios luminosos desciamem direção ao chão de poeira cósmicadebaixo dos nossos pés.debaixo dos nossos pésa explosãoa poeira cósmicao piche cinza escuroo buraco negroenquanto, na minha frente,uma mulher dançava de roupa brancadepois da dinamite explodir.

—-

[foto: francis bacon, gorilla with microphones]

    o astronauta ao menos.

    uma mulher dançava de roupa branca
    depois que a dinamite explodiu.
    eram milhares de papéis sobre nossas cabeças 
    sem nada escrito
    nenhuma linha pelo ar,
    pura levitação,
    e um sol preto
    e branco numa sala muito escura
    de tijolos manchados
    de carvão.
    uma parede dura
    por onde fios luminosos desciam
    em direção ao chão de poeira cósmica
    debaixo dos nossos pés.
    debaixo dos nossos pés
    a explosão
    a poeira cósmica
    o piche cinza escuro
    o buraco negro
    enquanto, 
    na minha frente,
    uma mulher dançava de roupa branca
    depois da dinamite explodir.

    —-

    [foto: francis bacon, gorilla with microphones]

     
     
  3. 39 plays
    Domenico Lancellotti
    Os Pinguinhos
    Cine Privê
    Prisma
     

    eu morro
    do tempo que corre rápido
    uivos e gritos e flores
    de cor neon
    e um arco-íris
    portátil que se compra
    por quarenta euros no chinês
    de barcelona.
    eu nunca fui a barcelona,
    mas te pergunto
    como é que se faz?
    e você responde:
    é só deixar o sol bater.
    então eu fecho os olhos
    bem fechados (coisa de criança)
    pra ver esse prisma
    luminoso em fração de segundos
    sobre as mãos das gentes como 
    nós,
    que nem sabemos o que
    enxergar - luzes da cidade, coração,
    sei lá,
    a vida anda depressa demais
    e eu vivo
    disto: destas pequenas novidades
    que você me conta todos os dias
    e que fazem a vida
    andar.

     
     
  4. 41 plays
    Cat Power
    I Feel
    Jukebox
    Um pássaro que voa pra cima de mim.
     
     

    fala o que falta
    mas não fala o que quer
    nenhum nome te cabe
    na boca
    e boca nenhuma te cabe
    no peito
    espera a casa se erguer
    de próprios pés
    em impulso mágico
    convulsão de movimento
    construção de cima pra baixo
    chuva de concreto, vigas no meu céu,
    paredes fechadas, janelas por furar.
    a mesa de jantar tá cheia, meu amor,
    eu tenho um vaso de flores e uma bomba-relógio,
    um delírio morno e um pássaro que voa
    pra cima de mim.
    e da varanda eu vejo esses temporais,
    vazantes pelo meu rio
    numa água que não escoa
    visgo doce que gruda na garganta e seca
    a voz e prende os pés.
    não adianta olhar pra cima,
    grudado ao chão do chão não sai.
    fala que falta
    mas não chama o que quer
    quando você olhar pra frente
    eu vou chegar
    aqui.

     
     
  5. A língua buscadaintimidade de flor se abrindopro Solquando ele vem.
 
 
 
 ——
 
foto da tracey emin, do absurdamente apaixonante ´one thousand drawings´

    A língua buscada
    intimidade de flor se abrindo
    pro Sol
    quando ele vem.

     

     
     
     ——
     
    foto da tracey emin, do absurdamente apaixonante ´one thousand drawings´
     
     
  6. 39 plays
    Radiohead
    No Surprises
    OK Computer
     
    it´s just an idea of space.
     
     
    se eu continuar andando 
    vai vir um vento
    vai vir um transatlântico
    vai vir um dia inteiro
    um dia imenso
    em cima de mim
    pesando
    sobre minha cabeça
    e sobre meu corpo fino
    e branco
    e meus braços
    abertos
    contra o vento
    meus braços
    segurando um navio
    meus braços
    furando esse dia
    gigante
    esse dia tremendo
    que nem onda no mar,
    sem respirar.
    embaixo d´água
    sem respirar.
     
     
     ——
     
    foto e título: tracey emin
     
     
  7. 89 plays
    Leonard Cohen
    Dance Me To The End Of Love
    Various Positions

    'both of us beneath our love
    both of us above.’

     
     
  8. 29 plays
    Fleet Foxes
    Montezuma
    Helplessness Blues
    Irei como um cavalo louco.
     

    toda a gente sai às ruas
    e chora sons graves pelo seu rei
    morto.
    lágrimas brancas
    de um país vazio
    em dias em que o céu
    parece não querer estar
    e uma lua vermelha toma tudo
    em cima de nós.
    ´são as marés enfurecidas’, dizes
    com voz enlutada.
    e olhamos para baixo
    olhos e mãos apertados
    em suores de criança
    vindos de dentro 
    junto dessas tremulações
    robustas - mãos de ferro
    que esmagam estômago
    e coração.
    lembras das vontades secretas
    de que venham à nossa cama
    pai e mãe
    para nos cobrirem e
    nos contarem histórias de palácios
    de ouro, frutas e flores,
    castelos que tomamos
    como nossos
    e caíram sem fazer vento.
    agora são coisas normais
    estas manhãs de ondas largas
    e tentáculos fortes que dão sem fim
    na areia de pedra mordida
    depois da arrebentação.
    cascalhos embaixo dos pés
    [nós que só sabemos pisar delicadezas]
    e árvores que descem do alto
    para deitar raízes
    sobre nossas cabeças,
    grandes emaranhados de
    terra e cabelos,
    novelo de tempo propício
    para tudo.
    aqui os pássaros voam baixo
    para sentir o chão quente
    debaixo das asas
    e o infinito todo à frente delas.
    tens de perceber:
    uma nação sem trono tem mais chão
    que terras.
    e é preciso tirar dos punhos
    o que for de comer
    e de amar.


    ***

     
    [a infância é nosso mais longo e fiel animal
     
     
     
    ————



    título do Fernando Arrabal.
    verso final da Dora Ribeiro.
     
     
  9. 29 plays
    Yo La Tengo
    You Can Have It All
    take it.
     
    corria pela pista 
    de olhos abertos.
    podia dizer que
    olhava pro infinito
    mas infinito não é futuro.
    futuro é caminho 
    embaixo dos pés -
    pedra
    passo
    tempo
    e fé.
    fé é chão
    chão é pra se andar
    e pra se querer.
    não adianta ter asas
    sem saber pousar.
    é aqui que tudo
    acontece:
    abre os olhos
    e vê.
     
     
  10. 9 plays
    Rocket Juice & The Moon
    Poison

    the system´s strong.